Relato da aluna: A francesa que aprendeu japonês no Brasil, para ter uma das maiores experiências de sua vida no Japão

Reportagem: Paula Cabral Gomes

Jardim do Palácio Imperial de Kyoto

Jardim do Palácio Imperial de Kyoto

Francesa, poliglota, jornalista, tradutora-intérprete e artista plástica. Esta é Marie-Gabrielle Bardet, aluna da Aliança Cultural Brasil-Japão desde 2010. Seu interesse pela cultura japonesa começou pouco depois de ter chegado ao Brasil, em 1993, quando descobriu a existência de uma grande comunidade japonesa em São Paulo, principalmente na Liberdade, e ótimos restaurantes de sushi e sashimi.

“Mas, segundo minha mãe, sempre tive atração pelo Japão, desde pequena. Principalmente pelo lado estético e tradicional. Eu é que tinha esquecido! Em compensação, não sou muito fã de mangás ou animes, porque já era adulta quando tive contato com essa nova cultura”, afirma Marie-Gabrielle.

A jornalista é fluente em francês, inglês, espanhol e português, além de ter noções de italiano e alemão. Essa sede pelo saber também levou à cultura japonesa, aos 45 anos. Assim que iniciou seus estudos na Aliança, ela sabia que iria para o Japão e, para isso, se preparou e planejou tudo até sentir que conseguiria se comunicar bem no idioma japonês e aproveitaria ao máximo.

Em junho de 2017, Marie-Gabrielle iniciou sua saga de três meses sozinha em solo nipônico. Visitou diversas cidades, estudou japonês, teve várias experiências inesquecíveis e conheceu o Japão, do tradicional ao mais moderno, de norte a sul.

Veja mais detalhes sobre a viagem de Marie-Gabrielle e detalhes de sua história com a cultura japonesa. Atualmente, a aluna está ministrando palestras e workshops sobre essa experiência maravilhosa!

Quando você começou a estudar japonês?

Eu comecei na Aliança em 2010, com o módulo Básico (seis estágios, dos quais um intensivo) e me formei em junho de 2012. Depois fiz o módulo Hikari (quatro estágios) e me formei em 2014.  Em 2015, parei um ano porque viajei para a França. Voltei a estudar em 2016, completando o curso com o módulo Nozomi (três estágios) e, portanto, já me formei em junho de 2017. Agora, só existem cursos extras tipo Brush Up, Tradução, Business etc. Ainda não me decidi, mas parar é que não vou!

 

Quando, como e por que começou seu interesse pela cultura japonesa?

O meu interesse pela cultura japonesa começou, na verdade, pouco depois de chegar ao Brasil, em outubro de 1993, quando descobri a existência da comunidade japonesa aqui em São Paulo, o bairro da Liberdade, os restaurantes de sushi e sashimi etc. Aliás, isso foi um dos tópicos do meu discurso de formatura do Hikari.

Mas, segundo minha mãe, sempre tive atração pelo Japão, desde pequena. Principalmente o lado estético e tradicional. Eu é que tinha esquecido! Em compensação, não sou muito fã de mangás ou animes, porque já era adulta quando tive contato com essa nova cultura.

 

Castelo de Matsumoto

Castelo de Matsumoto

Quando decidiu ir para o Japão sozinha?

Desde que iniciei o curso, em 2010, era óbvio que iria viajar um dia para o Japão, mas tinha vontade de ir somente quando estivesse capaz de me comunicar bem. Não queria ir como turista e ter que recorrer ao inglês, por exemplo. E também queria me inteirar bem da cultura (文化), das peculiaridades do povo, da língua etc., para estar o mais preparada possível.

 

Como foram os preparativos para a sua viagem ao Japão?

Costumo dizer que foi como uma gravidez, pois levou exatos nove meses de preparação! Comecei em outubro de 2016 e desembarquei em Tóquio em junho de 2017. Como não poderia ser de outro jeito (sendo francesa, virginiana, extremamente racional, cartesiana e perfeccionista), fiz o seguinte: montei uma tabela no Excel elencando todos os itens a serem considerados, com prazos a serem alcançados, valores etc., e fui preenchendo aos poucos. Sem esquecer tudo o que teria que ajeitar antes de deixar o Brasil.

A primeira coisa foi determinar a época da viagem (verão), apesar de muita gente querer me convencer do contrário, mas eu amo calor e não imaginava percorrer o país inteiro com neve, por exemplo. Como europeia, sinto até “saudade”, mas daí a viajar nessas condições, não dá!

Depois, escolhi a cidade e a escola onde queria fazer o curso de japonês para estrangeiro: a JALS, em Sapporo, por conta de uma amiga minha que é de lá e por saber que o clima em Hokkaido é bem mais ameno no verão. Mesmo assim, peguei uns 30 graus!

Como as aulas começavam somente na segunda, 17 de julho (海の日), resolvi chegar um mês antes para fazer turismo de cidade em cidade, graças ao JR Pass de três semanas. Então, peguei o mapa do Japão, olhei a malha ferroviária e, me baseando em folhetos, comentários de amigos e professores, sites (como o excelente www.japan-guide.com), tracei um trajeto indo de Osaka até Wakanai, ou seja, a metade norte do arquipélago. Defini algumas cidades onde queria parar: Kyoto, Nara, Gifu, Takayama, Toyama, Kanazawa, Nagano, Matsumoto, Morioka, Akita, Kakunodate e Aomori, e depois na Ilha de Hokkaido: Hakodate, Noboribetsu, Shiraoi, Sapporo, Otaru, Furano e Biei.

Em termo de acomodações, eu somente aluguei, via Airbnb, os três dias em Osaka, a semana em Kyoto, as seis semanas de curso em Sapporo e os últimos 10 dias na capital. Nas outras cidades, onde eu ficava pouco, resolvia de um dia para o outro, buscando na Internet um hotelzinho perto da estação de trem, que é sempre o mais prático (便利), quando você carrega mala.

Os pagamentos também foram espalhados por meses a fio. De outubro a dezembro de 2016, fui mandando remessas de dólares para a conta de minha amiga em Sapporo, para me sustentar durante os três meses no Japão, graças ao cartão de débito dela que eu poderia usar em qualquer kombini. Não queria usar o cartão de crédito, a não ser numa urgência “urgentíssima”, pois sai muito caro com os impostos no Brasil.

A seguir, em janeiro de 2017, comprei a passagem em uma promoção da Emirates (via Dubai) para festejar a vinda do A380 para Guarulhos. Em fevereiro, paguei a escola JALS. Em março, paguei as noites do Airbnb. Em abril, reservei e paguei os voos internos da ANA (companhia aérea do Japão): Tokyo-Sapporo, Sapporo-Osaka e Sapporo-Tokyo (100 dólares cada trecho para turista). Em maio, fiz o teste de avaliação da JALS, paguei o JR Pass e reservei meu serviço de Wi-Fi portátil por três meses (absolutamente imprescindível). Por fim, em junho, pouco antes da viagem, contratei um seguro-saúde (Affinity). Ufa!!!

Além de tudo isso, fui preparando caixas com produtos de alta necessidade que dificilmente acharia no Japão: por exemplo, remédios específicos (lá, se não tem receita de um médico local, não adianta querer comprar), granulados homeopáticos e coisas que toda mulher tem que ter, produtos de higiene e beleza. Um estoque para 3 meses! Comprei também roupa e sapatos confortáveis, porque sabia que andaria muito a pé e de bicicleta.

Aliás, falando nisso, também me programei fisicamente, reiniciando balé e natação seis meses antes da viagem. Estava com muito medo de ter dores na perna direita que quebrei em três lugares há 10 anos. Parece milagre, mas não tive uma só dor na perna, portanto, acredito que é a umidade tropical no Brasil que me atrapalha e não a do hemisfério Norte!

Tudo foi pensado nos mínimos detalhes e, por isso, deu tudo certo na viagem, exceto que emagreci tanto no primeiro mês que baixou minha imunidade e peguei o vírus herpes-zoester (帯状疱疹), que é o mesmo da varicela!

Cabo Soya, Wakkanai, Hokkaido

Cabo Soya, Wakkanai, Hokkaido

 

De quais lugares mais gostou?

Fiquei somente três dias em Osaka, o que não é suficiente para avaliar o lugar, mas, de qualquer forma, não foi amor à primeira vista, não. Mas eu já imaginava, pois o que eu buscava era a outra face do Japão, o lado tradicional, e não o lado urbano.

Kyoto e Nara, obviamente, eu adorei. Não tem como não amar a antiga capital Edo! Depois, quando ativei o JR Pass para começar minha peregrinação na região montanhosa dos Alpes Japoneses, me deliciei com as cidades menores, as pessoas simples, a paisagem verde deslumbrante, os mercadinhos e as ruas, os pedestres, os bairros de saké ou samurais, os artesãos regionais, enfim, o que eu chamo de Japão de raiz.

Sapporo, na verdade, detestei por ser muito “americanizada” e, principalmente, por conta de um vento forte e gelado (風) vindo da Sibéria que soprou 40 dos 42 dias que passei na cidade. Estava calor, eu transpirava, mas tinha que proteger minha garganta o tempo todo e era extremamente irritante pedalar contra o vento, que quase me derrubava da bicicleta.

Tokyo? Amei, ainda mais porque meu apartamento Airbnb estava situado à beira do canal de Nakameguro, um bairro de artistas, bem descolado, com muito verde e água. Se tiver que morar na capital, é lá que quero ficar. Apesar de ser uma metrópole, achei um “vilarejo” comparado com São Paulo.

 

Izakaya em Takayama

Izakaya em Takayama

O que mais te impressionou?

Fora todos os lugares turísticos de Kyoto e arredores que todo mundo conhece (Kinkakuji, Ginkakuji, Arashiyama, Kyomizu-dera, Fushimi-Inari e Nara), as 12 experiências definitivamente mais impressionantes para mim foram (por ordem cronológica e indo sempre em direção ao Norte):

1)    a pesca noturna do ayu (鮎) com corvo-marinho no rio Nagara em Gifu – um momento mágico que guardarei para a vida toda. Eu era a única “gaikokujin” no meio dos japoneses e nem sinal de chineses! Essa pesca leva o nome de hukai.

2)    o “gasshou-mura” de Gero-onsen, reconstituição fiel do vilarejo de Shirakawa-go.

3)    a pequena cidade de Takayama – um paraíso para as bicicletas – com seu mercadinho (朝市) à beira do canal, suas ruas floridas e o museu de arte (美術館) com exposição permanente da Lalique.

4)    o parque Kenrokuen (兼六園) de Kanazawa, o terceiro mais bonito em paisagismo do Japão, assim como o atelier de Kana-Yuzen (pintura de kimonos).

5)    a visão fantasmagórica do castelo de Matsumoto iluminado numa noite de luar.

6)    o antigo bairro de samurais preservado no vilarejo de Kakunodate (a 50 km de Akita) com as centenas de cerejeiras choronas (imagine na época de sakura!).

7)    a visão espetacular da Baía de Hakodate, de noite – umas das três mais bonitas do Japão.

8)    os gêiseres sulfurosos do Vale do Inferno (Jikoku Valley) perto de Noboribetsu-onsen.

9)    a lagoa azul piscina de Biei, perto de Furano (campos de lavanda).

10)  o festival de verão Odon-bori em Otaru, vila de pescadores de Hokkaido com o fogo-de-artifício sobre o mar.

11)  o Museu de Arte Moderna a céu aberto de Sapporo (uma espécie de Inhotim japonês).

12)  e, finalmente, como já disse anteriormente, o bairro de Nakameguro, em Tokyo – um bairro tipo Vila Madalena, atravessado por um riacho e cheio de boutiques e lojinhas charmosas, brechós, ateliers, artistas, designers, galerias de arte, restaurantes típicos, cafés com terraços e mesas ao ar livre.

 

Sapporo, Hokkaido

Sapporo, Hokkaido

O que mudou em você com relação à cultura japonesa após conhecê-la pessoalmente?

É um processo complicado e interessante. Amei certas coisas e odiei outras. Aliás, se algum leitor quiser saber mais detalhes da minha vivência, vejam alguns dos meus “cadernos de viagem” que foram publicados na Internet no site do www.petitjournal.com, edição Tokyo, pois sou jornalista também.

Infelizmente, está tudo em francês, mas se usar o Google Translator, de repente, dá para se ter uma ideia! O link do último é: https://lepetitjournal.com/tokyo/communaute/carnet-de-voyage-dune-francaise-du-bresil-au-japon-45-220505. No final da matéria, tem os links das três primeiras matérias já publicadas. E tem mais um artigo para ser publicado, ainda!

Mas voltamos à pergunta. No Japão, tudo é contraste: o velho e o novo, o tradicional e o moderno, o artesão centenário e o executivo high-tech, um santuário milenar encostado num arranha-céu, uma maria-fumaça vermelha e o shinkansen de última geração, a roupa careta e o penteado louco.

Mas uma coisa eu sei… Fiquei literalmente com depressão “pós-retorno” na minha volta e passei um mês sonhando todas as noites com o Japão e acordava chorando ao ver que estava na minha cama no Brasil! Após 25 anos neste país, acho que “já deu”, principalmente desde 2010 que a coisa vem decaindo com a política, a crise e tudo mais. Quero ir embora, pelo menos um ano.

Apesar de não acreditar na reencarnação (cresci na fé católica), assim como já fui brasileira em outra vida, com certeza também já fui japonesa! Não dá para explicar a conexão que senti e a impressão de “déjà vu” em tantas situações nesses dois países. Mas hoje, o Brasil para mim já é passado e só penso num futuro no país do Sol Nascente.

Pensei muito e gostaria muito de ser aprendiz de Yuzen (pintura em quimonos) em Kyoto ou Kanazawa, não sei exatamente ainda… Preciso procurar as Kenjinkais e entrar em contato com ateliers para propor meus serviços. Aliás, novamente, se algum leitor souber ou puder me ajudar nesse processo, agradeceria muito. Eu já pinto em tecido, então acredito que saber manejar um pincel já é metade do caminho andado! Os artesãos japoneses estão recorrendo hoje até a estrangeiros para ensinar sua arte, pois são poucos os jovens de lá que se interessam em preservar as técnicas artesanais, centenárias ou até milenares. Estou cruzando os dedos e, se der tudo certo, após um ano de experiência renovável para um período de estágio mais prologado, posso até pedir visto de residência em três anos, acredito, com a nova lei de imigração.

 

Quais dicas você daria a pessoas que pretendem ter experiências semelhantes às suas?

Dedicar-se de corpo e alma aos estudos, tanto da língua como da cultura; mentalizar-se psicologicamente e programar-se fisicamente com antecedência (a não ser que você seja muito jovem e extremamente aventureiro); fazer um cronograma da viagem e tarefas a cumprir (must see, must do) e ir sem preconceitos ou expectativas altas demais (assim você não se decepcionará e poderá até se surpreender). E, logicamente, experimentar tudo o que puder, sem restrições. Seja na gastronomia ou nas experiências culturais!

O Japão é, com certeza, o país mais seguro do planeta para se viajar sozinho (mesmo sendo mulher) e é também o mais preparado para o turismo (tudo funciona, os preços quase não mudam, as informações são sempre certas). É uma delícia e um alívio, pois o cansaço físico-mental é inevitável quando não se é totalmente fluente no idioma.

 

Qual a importância do aprendizado e do compartilhamento da cultura japonesa no Brasil?

Bem, não sei se sou a pessoa mais adequada para responder a essa pergunta. Por ser estrangeira, vejo essa mistura com outro olhar. Minha visão de europeia é bem diferente. No Japão, eu reencontrei um pouco da França de minha infância, a que não existe mais, uma França que teria parado nos anos 90 no máximo. A França e o Japão têm muito em comum na gastronomia, na disciplina, na pontualidade, na educação, no paisagismo, no respeito à natureza e aos ciclos de vida.

No meu entender, o povo brasileiro, sem sombra de dúvida, só ganhou em qualidade com a imigração japonesa e sou eternamente grata ao Brasil e à Aliança por ter me mostrado essa outra faceta cultural que na verdade, buscava desde pequena!

Colaboradores
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