Palavra • Amaterasu – Versão 3

A terceira versão da origem da Deusa do Sol consta no Kojiki. Esta interpretação da história, a coloca em um contexto muito mais sombrio, envolvendo o conceito de morte, putrefação e a necessidade de purificação.

 

A narrativa aborda tudo isso, tendo como ponto de partida nas várias ações criativas, pelas quais Izanagi e Izanami produziram as ilhas do Japão e todo o universo natural. Tudo parece estar indo bem, quando de repente Ianami dá à luz a Kagu-Tsuchi (Criança do Fogo), que queima seu ventre quando sai. Gravemente ferida, Izanami adoece e morre. Profundamente perturbado, Izanagi desce até Yomi, na esperança de trazer de volta sua amada esposa.

 

Ele consegue encontrá-la e falar com ela, mas então, em um aterrorizante reverso do destino, ele descobre que sua carne estava em decomposição, sendo comida pelos vermes. Horrorizado, Izanagi foge e ele quase perde sua vida. Ao atingir o mundo superior, ele se sente maculado e impuro. Por isso, decide se purificar. Ao se banhar, ele lavou primeiro seu olho esquerdo e fez nascer a grande deusa, Amaterasu Omikami. Então ele lavou seu olho direito e criou Tsukiyomi-no-mikoto. Finalmente Izanagi lavou seu nariz e dele surgiu Susanoo -no-mikoto.

 

As relações entre Amaterasu e seu irmão mais novo eram instáveis desde o começo. Susanoo parecia ser o proverbial criador de danos, pregando malvadas peças e aborrecendo constantemente sua irmã mais velha. Além disso, ele parecia incapaz de aceitar a trágica morte de sua mãe. Seu choro constante e lamentações causaram o definhamento das florestas nas montanhas e os rios e córregos secaram. Finalmente, seu pai Izanagi mandou que ele deixasse o domínio terrestre e descesse para Yomi. No entanto, antes de partir, Susanoo decidiu visitar sua irmã pela última vez. Ao se aproximar, ele fez tanto barulho que as montanhas e rios tremeram. Ao encontrar Amaterasu, ele lhe disse que não pretendia prejudicá-la, que queria apenas se despedir, antes de partir para o reino onde estava sua mãe. Amaterasu ainda suspeitava, mas Susanoo propôs que, como sinal de sua amizade, eles poderiam gerar um descendente, se desejassem. Seu divino ato de procriação assumiu a forma de uma devoração recíproca de seus mais sagrados talismãs; ele consumiu o colar de Amaterasu e ela sua espada. Deste ato, vários deuses e deusas foram criados, dentre eles Ame no Oshi-ho-Mimi no Mikoto (Realmente eu conquistei a Velocidade Celestial da Grande Venerável Figura), que depois se tornou  o ancestral da linhagem imperial japonesa.

 

No entanto, a afeição resultante dessa troca de energias criativas provou ser curta. Quando Susanoo retornou para ver Amaterasu, ele estava selvagem e irresponsável. Ele destruiu a  divisão dos campos de arroz, feita por Amaterasu e a preencheu com fossos. Então ele jogou excremento no palácio de sua irmã. Depois disso, Susanoo encontrou Amaterasu sentada em um grande saguão, olhando outras deidades tecerem celestiais peças de vestuário. O Deus das Tempestades abriu um buraco no telhado e atirou um cavalo morte no saguão. As deusas que teciam ficaram tão assustadas que muitas se feriram e algumas chegaram a morrer. Amaterasu ficou tão horrorizada com o incidente, que se escondeu em uma caverna funda, no centro da terra, chamada de “Caverna Rochosa” e se recusou a sair. Como resultado, o mundo mergulhou na escuridão.

 

Os deuses penduraram o Yata no Kagami (Espelho de Oito Lados) e as curvadas jóias Yasakani no Magatama, na sagrada árvore sakaki, localizada em frente à caverna. Por meio desses artifícios, eles esperavam iludir Amaterasu que ainda havia luz no mundo, apesar de sua ausência. Enquanto isso, a deusa Ame no Uzume subiu encima de uma tina invertida para dançar. Tomada pela excitação de sua dança, ela despiu toda a sua roupa. Isos fez os oitocentos deuses rolarem de rir. Eles riram tão alto que despertaram a curiosidade de Amaterasu.

 

 

 

Como Amaterasu abriu a entrada devagar e suavemente, os galos começaram a cantar, as jóias Magatama brilharam e o espelho pendurado na árvore refletiu sua luz. Ela então pensou de havia alguém ou algo igual a ela, iluminando o mundo.

 

 

Quando ela abriu a entrada um pouco mais, a deidade Ama no Tajikara-wo no Kami (Deidade Masculina da Mão Forte), que estava esperando atrás da entrada, puxou Amaterasu para fora e gentilmente bloqueou a caverna.

 

 

Amaterasu concordou em permanecer no mundo visível e nunca mais se retirar. No entanto, ela ainda estava zangada com Susanoo e queria que ele fosse punido pelo que havia feito. Os deuses decidiram exilar Susanoo. Eles cortaram sua barba e bigode, arrancaram suas unhas das mãos e pés e o chutaram fora dos céus. Castigado, ele desceu na região de Izumo e decidiu se corrigir. Logo depois, Susanoo derrotou o dragão Yamato no Orochi, que estava saqueando a região de Izumo há muito tempo.

 

Quando o vitorioso Deus das Tempestades encontrou na cauda do monstro uma maravilhosa espada, Kusanagi no Tsurugi (Cortador de Grama), ele decidiu dá-la a Amaterasu como uma oferenda apaziguadora para se retificar de suas danos.

 

Enquanto isso, Amaterasu tinha planos ambiciosos para seu primeiro filho, com Susanoo, Ame no Oshi-ho-Mimi no Mikoto. Depois de se consultar com Takami-Musubi no Mikoto (Altamente Venerável e Desenvolvido, os Três Deuses Primordiais), dois deles concordaram em enviar Ame no Oshi-ho-Mimi à terra, para impor ordem no desregrado mundo terrestre. No entanto, o último deus ficou parado por um tempo na Ponte Flutuante dos Céus e ceticamente, analisou o mundo abaixo; então ele decidiu que a terra por demais incontrolável e retornou aos céus. Amaterasu e Takami-Musubi então se aconselharam com outro deus celestial e resolveram enviar Ame no Hohi no Mikoto (outro descendente de Amaterasu e Susanoo) para tentar novamente. Mas Ame no Hohi não voltou com nenhuma notícia. Isso frustrou profundamente is oitocentos deuses celestiais; então eles enviaram o um grande deus guerreiro, Ame Wakahiko para a terá, armado com um divino arco e flecha. Infelizmente, logo depois de ter chegado a terra, este deus mudou de idéia e esqueceu tudo sobre os céus. Dentro de um curto tempo, Ame Wakahiko se casou com a deusa terrestre, Shitateru-Hime. Oito anos se passaram, sem notícias de Ame Wakahiko. Os deuses estavam muito curiosos; então decidiram enviar Nanaki, o faisão sagrado, cuja tarefa era falar com Ame Wakahiko. Em seu caminho, o pássaro pousou em um galho de uma árvore e foi visto por Ame Wakahiko, que prontamente atirou uma das flechas que os deuses haviam lhe dado. Depois de matar o pássaro, a flecha divina continuou a voar, até aterrisar aos pés de Amaterasu e Takami-Musubi. Os altos deuses imediatamente perceberam que era uma das flechas de Ame Wakahiko. Enfurecidos, eles arremessaram a flecha de volta a terra, onde ela atingiu o coração de Ame Wakahiko e o matou.

 

Depois desses acontecimentos, o filho de Amaterasu, Ame no Oshi-ho-Mimi, teve um filho chamado Ninigi no Mikoto. Este jovem deus também era neto de Takami-Musubi, e dessa maneira era duplamente dotado com supremos poderes divinos.

 

  

 

Ao enviar seu Venerável neto à terra, Amaterasu confiou a Ninigi as Três Sagradas Regalias: o Yata no Kagami, as Yasakani no Magatama e a espada Kusanagi no Tsurugi.  Quando entregou o espelho, Amaterasu disse a Ninigi: “Respeite este espelho exatamente como se ele fosse nosso venerável espírito e o reverencie como se nos reverenciasse.” Ninigi concordou. Com a mente cheia de devoção e lealdade ao seu sagrado dever, ele desceu para terra e iniciou a organização do mundo desregrado.

 

Logo depois disso, Ninigi se casou com Kono-Hana-Sakuya-Hime (Princesa Florida Brilhantemente como as Flores das Árvores), a filha da deidade Possuidor da Grande Montanha. Eles tiveram dois filhos, Ho-no-susori no Mikoto e Hiko-hoho-demi, dos quais o primeiro se tornou o ancestral de Jimmu, o primeiro imperador do Japão.

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